segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Critérios morais adequados à parcialidade de nossos cérebros. Ou: Dois pesos e duas medidas

Achei a reflexão do Hélio Schwartsman fantástica. Foi publicada na Folha de S.Paulo, em 21 de fevereiro de 2016, durante a duradoura batalha entre "coxinhas" e "petralhas" sobre o verdadeiro caráter das investigações envolvendo dois ex-presidentes do Brasil.

Para a direita, iniciativas investigando Lula são "justiça sendo feita", enquanto as que envolvem Fernando Henrique são "para tirar o foco do Lula". Para a esquerda, perseguidores do MP e a PF escolheram o bandido, Lula, e agora procuram algum crime para imputar-lhe, ao passo que jamais irão "devassar" a vida do FHC da mesma forma que fizeram com Luiz Inácio.

"O que eu gosto da política é que ela escancara a parcialidade de nossos cérebros, que não hesitam em adequar os critérios morais que usamos à pessoa que está sendo julgada. Aos amigos, os benefícios da dúvida, aos inimigos, os rigores da lei." (Hélio Schwartsman)

Pendengas na bodega à parte, só tenho uma certeza: vou continuar aguardando o fim de toda e qualquer investigação e os julgamentos, inclusive recursos, para então, e só então, emitir talvez algum juízo de valor sobre quem quer que esteja sendo acusado.

Enquanto isso, permaneço com a consciência tranquila; não estou condenando ninguém injustamente, seja amigo ou inimigo.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A nova escritora

A conversa transcorria normalmente até aquele momento, mas Márcio chegara a seu limite. Naquela sala ampla e arejada, apenas duas das oito mesas ainda eram ocupadas por ele, advogado, e por Cláudia, jornalista; os outros saíram pontualmente às seis, deixando os dois “Caxias” enfurnados no volume de trabalho que não cabia no horário de expediente.

Márcio reconhecia em sua colega de trabalho um potencial ímpar para escrever e, ao mesmo tempo, já não suportava as constantes queixas sobre o ambiente corporativo selvagem em que se inseria. A jornalista, segundo o Márcio, estava dia após dia aprisionando uma talentosa escritora e, como todos sabem, não se deve encarcerar alguém tão importante sem justa causa. Ainda por cima, dizia ele, no dia em que ela libertasse o Alberto Caeiro de dentro de si se descobriria o Fernando Pessoa que sempre foi.

- Então, você vai começar logo a escrever ou não?

- Agora? Não, vou pra casa! Nem pensar, estou há dez horas nessa joça.

- Ontem você ficou quatorze e não fez nada de útil para a humanidade. Pode começar agora a pagar essa dívida, que tal?

- Olha, Márcio, eu agradeço mesmo, de coração, o seu incentivo, mas vamos deixar pra outro dia. Eu já não me aguento de fome, de cansaço, de tudo nesse lugar...

- Você tem que tirar algum proveito, Cláudia. Se não começar a escrever aqui, em casa é que você não vai. Encare como uma hora de trabalho para si mesma. Aliás, você nunca recebeu sequer uma hora extra das milhares que já fez para o Dr. Wesley. Nada demais fazer uma horinha pra você.

- Tem um problema, eu não tenho assunto.

- Ah, pelo amor de Deus. Escreve qualquer coisa! Fala mal do governo...

- Mas eu não sou contra o governo!

- Fala assim mesmo, é o que está na moda. Daqui a pouco vão chamar você para o “O Oposicionista”.

- Ah, não. Dos meus princípios eu não abro mão, se for para ir contra meus os ideais, é melhor que eu desista antes de começar!

- Então escreve sobre o risco de extinção do Mico-Leão-Dourado. Você sabe que bicho é o que vende, todo mundo gosta.

- O mico-leão-dourado não está mais ameaçado, Márcio. E eu até gosto de bicho, mas o assunto está tão batido que toda vez que alguém fala dos animais parece propaganda eleitoral.

- Escreve logo o que der na telha! O importante é começar. Como dizia Machado de Assis: não há como saber o que existe dentro da castanha sem quebrar a casca. Escreve um texto sobre a desigualdade social e outro sobre a livre iniciativa. Depois faz um que aborde os hábitos saudáveis no ambiente de trabalho e outro sobre multitarefas, aí você cria um artigo sobre a convivência com vizinhos barulhentos e...

- Epa! Epa! Você quer que eu escreva ou frite pastel? Quem escreve a gosto do freguês é a galerinha chapa branca. Eu preciso me concentrar, essa pressão toda não está me ajudando. Se você não sabe o que quer, deixa eu pensar um pouco.

- Ok, vou tomar um café, então. Quando voltar, eu quero ver o que você escreveu. Põe uns termos poéticos no começo, daí você deixa umas frases curtas e escreve que...

- Vai logo, Márcio!

Na copa, ele serviu café morno, mas o açúcar tinha acabado de novo e – fazer o que? - foi tomar água. Nem ligou; o que importava, pensava ele, era dar um tempo para desabrochar a veia literária de sua amiga. Talvez ela pudesse usar um heterônimo masculino até seus textos serem populares, já que o mercado se importa menos com o gênero literário que com o gênero do autor. Daí ela seria uma nova Clarice Lispector, uma Cecília Meireles do terceiro milênio. Na realidade, Márcio esperava ver nela a escritora que ele próprio não conseguiu ser.

Voltou, então, após poucos minutos, ansioso por ver a semente brotando na terra fértil. Qual não foi a surpresa quando a encontrou vidrada na telinha do celular, e o monitor do computador com uma página em branco aberta.

- O que aconteceu, Cláudia?

- O Dr. Wesley está numa reunião, pediu para fazer o release agora e mandar para três jornais. E quer texto exclusivo para cada um. Está me mandando alguns áudios no whatsapp.

- Esse lugar sufoca seu talento, será que você não percebe? Você vai acabar com o seu potencial aqui até que ele sugue a última gota de energia e criatividade que lhe restar. Chega, desisto.

E sentou-se na mesa ao lado, para ajudar a terminar o bendito texto on demand que a “amiga escritora” não precisaria fazer se já tivesse em casa.